Professor Reinéro Lérias, do Centro Universitário UNIFIO, fala sobre a pesquisa História das Pandemias no Mundo

Rose Pimentel Mader

 

Entrevistamos o pesquisador e conseguimos antecipar algumas informações sobre o trabalho realizado:

 

Após mergulhar nessa pesquisa histórica sobre as pandemias que conclusão o senhor chegou sobre a relação do homem em relação à ciência?

 

Prof. Reinéro – Entendo que o homem tenha, inegavelmente, avançado, e muito, no plano científico. Isso não quer dizer, que este apregoado conhecimento a que se propôs, o tenha levado à uma compreensão que possa ser considerada a personificação de uma pretensa verdade. Há uma passagem de uma carta de Ivan Turguêniev e Leon Tolstoi de 1856, que sintetiza bem isso: “as pessoas que se cinzem a sistemas são incapazes de abarcar a verdade inteira e tentam agarrá-la pela cauda; um sistema é como a cauda da verdade, mas a verdade é como um lagarto; deixa-nos a cauda nos dedos e foge, sabendo perfeitamente que lhe crescerá uma nova num abrir e fechar de olhos”.

Em suma, o vírus foi detectado ao que se sabe em 1892 pelo botânico russo Dimitri Tranovsky, ao estudar a doença do mosaico do tabaco que ao certo, ele hiberna no vegetal ou no animal para voltar sempre com mais força em outras pandemias; isso sem se levar em conta se ele não foi produzido em laboratórios.

 

 

Transcorridos centenas de anos, apesar de todas as conquistas nas áreas da ciência e tecnologia, vivemos o mesmo dilema? Somos impotentes na guerra contra os vírus?

 

Prof. Reinéro – Na minha modesta maneira de entender, todos estes avanços científicos acabaram por criar um falso paradigma em relação ao conhecimento. A palavra tecnologia tão utilizada nos dias, advém do termo grego “téchne”, que quer dizer “ser patrão e dispor da própria mente”, e isso não é feito, porquanto quando ela é lançada no contexto social, mesmo que seja objetivando o “bem” do ser humano. Afinal, existem milhares de inextricáveis interesses de toda ordem, sedentos em obter vantagens materiais. Basta ver os escândalos em relação à compra de respiradores em diversos Estados e Municípios, inegavelmente, o mesmo dar-se-á com a vacina.

O ser humano, por mais inteligente que seja, segundo Thomas Sowell, consegue absorver não muito mais que 1% do conhecimento que o cerca, enquanto os outros 99% estão diluídos no corpo social, ou seja, cada um vê sempre segundo seus interesses. Assim, é mais fácil acumular poder do que o conhecimento, este é o “câncer” da espécie humana.

 

 

Qual a sua expectativa em relação à cura da COVID-19?

 

Prof. Reinéro – A cura, sendo bastante objetivo, só virá com a descoberta de uma vacina, que na minha maneira de entender. Aqui na instituição existem professores com maior conhecimento para responder sobre isso nos cursos de Ciências Biológicas, Biomedicina, Farmácia, Enfermagem, entre outros. Porém, entendo que para se chegar à cura há mais obstáculos de ordem econômica-política-ideológica do que óbices de ordem técnica. Há todo um espectro que gera em torno do vírus muito maiores do que ele próprio e seus efeitos deletérios, infelizmente.

 

 

Em sua opinião, quais as lições que o homem não aprendeu, ao longo da história, em relação ao combate das doenças?

 

Prof. Reinéro – A questão seria mais precisa se a colocássemos no futuro do pretérito do indicativo: “o que o homem deveria ter aprendido durante tantas endemias, pandemias, pestes e consortes”. Antes de tudo, a meu ver, é que já era mais que tempo da Humanidade ter aprendido que a apreensão de sua narrativa diante da realidade é limitadíssima. Se dermos uma passada de olhos sobre a quem ele atribuía a culpa no tocante às razões responsáveis pelo surgimento da peste de Atenas, no século V a.C., não diferiu em nada da Peste Negra século XIV; o mesmo ocorrendo com a Gripe Espanhola 1918, repetindo-se agora com a COVID-19. Vivemos em busca de culpados, esquecendo-nos de nós próprios. Independentemente deste vírus ser natural ou não, o que este ser humano, que se julga o mais nobre dentre todos os animais, faz com a natureza?

 

Há mais semelhanças ou mais diferenças entre as grandes pandemias ao longo da história?

 

Prof. Reinéro – Essa é outra situação sobre a qual podemos refletir com a pesquisa. É notório que as ciências da saúde, seus instrumentos e suas técnicas avançaram. Contudo, havemos de concordar que tanto no passado quanto agora, nem todos, ou melhor, a maioria da população não tem acesso aos melhores profissionais, equipamentos e tratamentos. Em síntese, há muito mais semelhanças do que se possa imaginar entre as pandemias ao longo da história.

 

Outras considerações do pesquisador sobre o trabalho

O pesquisador destaca alguns pontos considerados de extrema relevância, com o intuito de trazer alguma luz sobre essa temática pouco explicada e tão assustadora.

Uma delas, talvez a principal, é que as bactérias habitam o planeta há milhões e milhões de anos antes do surgimento dos mamíferos, e dentre eles, o chamado hominídeo. Sem elas não haveria forma de vida no planeta; por isso, tais criaturas aqui permaneceriam independentemente de existir ou não a espécie humana. Enquanto esta última não conseguiria sobreviver, sequer por um dia. Contudo, o que é mais contundente saber, refere-se ao paradoxo reinante nisso tudo, ou seja, aquelas que dão vida ao hominídeo, hoje chamado homem, a tira da mesma forma que a criou; isto porque nem a “mãe” natureza consegue a perfeição, talvez porque a ideia contida nesta palavra “mãe”, criada pelo homem, é totalmente irrelevante para a natureza e si; e o exemplo maior disso são os vírus, grande parte letal. E como são gerados? Pelas anomalias que acontecem na replicação das bactérias, daí as deformidades e as mutações que geram os vírus; vale dizer, um desvio em suas funções. E quem são seus hospedeiros? Aquela espécie que se julga o centro supremo de toda natureza: a espécie humana, como bem asseverou a bióloga norte-americana, Lynn Margulis.

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