Pesquisa sobre História das Pandemias é desenvolvida no Centro Universitário UNIFIO

Rose Pimentel Mader

        Para muitos, a pandemia causada pelo novo Coronavírus é vista como uma novidade excepcional e singular, mas isso não é verdade. Desde a Antiguidade, o ser humano luta contra as bactérias e vírus que ao longo da história provocaram inúmeras doenças infecciosas com elevado grau de mortalidade. O cenário mundial atual trouxe à tona outros períodos difíceis e trágicos para a Humanidade, que também impuseram rotinas de distanciamento social, com reflexos profundos na vida política, econômica e social da sociedade.

Professor decano do Centro Universitário UNIFIO, Reinero Antonio Lérias, é um dos mais destacados historiadores brasileiros. Segundo ele a pesquisa nasceu com o objetivo de contribuir com a sociedade nesse momento de incertezas e o fez mergulhar num profundo trabalho investigativo sobre a história das pandemias, que inclusive será brevemente publicado em revistas científicas. O pesquisador faz questão de sempre mencionar e agradecer à ex-aluna Elizandra Cristina Marrega, que o apoia na revisão do trabalho.    

A intenção inicial, além de compartilhar seus conhecimentos e sua pesquisa com a comunidade acadêmica, foi de mostrar os desafios enfrentados historicamente pelo homem para vencer momentos como esse que estamos vivendo, nos dias atuais.

Apesar de todos os avanços tecnológicos e conquistas científicas em todas as áreas, especialmente no campo da saúde, o homem, desde sempre, encontrou dificuldades para combater os vírus e prevenir a sociedade das doenças epidemiológicas. Em constantes mutações, os vírus impõem aos cientistas uma busca incessante por tratamentos, procedimentos, remédios e vacinas que nem sempre se mostraram eficazes.

Em sua pesquisa, o professor Reinéro Lérias apresenta uma cronologia das pandemias já vivenciadas pelo homem, seus desafios e respectivos reflexos na sociedade. Segundo ele, milhares e milhares de anos antes de uma das mais célebres pandemias histórias, a denominada “Peste de Atenas”, no Século V a.C., muitas epidemias e pandemias levaram inúmeras vidas humanas.

No Brasil não foi diferente. O Pesquisador concluiu que “a morte em decorrência de vírus, é tão antiga quanto a história do país, a exemplo dos registros do jesuíta José de Anchieta, no ano de 1562, quando informa que perderam-se as vidas milhares de índios e de escravos na cidade do Rio de Janeiro”.

 

Peste de Atenas (Século V a.C)

 

Devemos à acuidade e perspicácia de Tucídides, em sua “Guerra do Peloponeso”, um dos maiores registros, senão o maior, a relatar o flagelo que abateu sobre os gregos. Segundo Reinéro Lérias “a clareza das palavras de Tucídides sobre os sintomas e consequências da doença, a possibilitar uma viagem até os trágicos acontecimentos, muito embora, não se saiba até hoje, se em decorrência da varíola ou do tifo, a riqueza de detalhes deste historiador permitiu aos estudiosos desta temática detectar no transcorrer da história uma repetição dos agentes em cena em buscar culpados para tudo, mormente quando se deparam com o inexplicável”.

 

Peste Negra (Século XIV)

 

Um outro flagelo abordado na pesquisa foi a denominada Peste Negra, no século XIV. “Embora tenha ocorrido, quase dois mil anos após a Peste de Atenas, também não se sabe da origem. Porém, a busca pelos culpados se repetiu nitidamente: só que agora eram os grandes inimigos dos cristãos, os judeus, que foram acusados de envenenarem as fontes de água potável. Houve uma perseguição implacável em relação a eles, sendo esta, de tal monta, que o número de mortes chegou a ser chamado pelos estudiosos de Holocausto medieval”.

O Pesquisador explica que o desenrolar da Peste Negra engendrou, como no caso de Atenas, crises de toda ordem. Até a famosa Universidade de Montpelier, fundada em 1289, muito reconhecida em toda a Europa de então pelo seu curso de medicina, teve mortos todos os seus médicos residentes, vítimas da peste. “O mesmo aconteceu com a economia que entrou em colapso, sobretudo, no tocante à crise no abastecimento de todos os gêneros, principalmente aqueles de primeira necessidade: alimentos, cujos preços dispararam de tal forma que muitos começaram a passar fome. Assim, até os animais domésticos passaram a ser sacrificados para servirem de alimentação”, explicou.

O Professor Reinéro encontrou uma curiosidade. De acordo com suas pesquisas, “foi desta catástrofe ditada pela Peste Negra, que nasceu a quarentena, iniciada pela trintena. Este expediente tornou-se tão eficaz que perpassou o tempo chegando aos nossos dias”, disse.

 

Gripe Espanhola (1918-1920)

 

O trabalho do professor Reinéro destaca ainda a Gripe Espanhola, discorrendo sobre as razões do nome que nada tem a ver com a origem da pandemia, mas sim ao fato de a Espanha tornar-se o centro irradiador das notícias visto que, por ser  um  país neutro na guerra, sua imprensa não sofria censura como a dos demais países. Abordou também, conquanto não se tenha ainda consenso, que a sua origem está ligada aos EUA. O número de mortos neste país reforça esta tese. Muito embora a pandemia tenha se alastrado pelo mundo todo, causando milhões e milhões de mortes em período muito menor que o da Primeira Grande Guerra.

No caso da Gripe Espanhola, o pesquisador do Centro Universitário UNIFIO chamou a atenção para uma questão até hoje sem resposta: a de ter morrido em maioria jovens, entre 20 e 30 anos, e não crianças e idosos, os mais vulneráveis nestes períodos pandêmicos. “Como não poderia deixar de ser, a Gripe Espanhola trouxe em seu bojo um pacote de maldades. As autoridades, buscavam impedir as pessoas de pegarem e utilizarem as roupas dos mortos, com o intuído de impedir a propagação da doença, pois isso aumentava, sobremaneira, a contaminação”. A crise econômico-financeira e a paralização dos transportes e, com ela, a falta de gêneros de primeira necessidade, trouxe em sua esteira aumentos abusivos nos preços e fome.

No Brasil, a pandemia da Gripe Espanhola também gerou um grande impacto. O Professor identificou duas linhas de interpretação sobre a chegada da Gripe Espanhola em nosso país: a da missão médica brasileira enviada à Europa à bordo do navio hospital francês La Plata com o intuito dela prestar ajuda aos soldados que combatiam no front da Primeira Grande Guerra; e a da contaminação e mortes a bordo do transatlântico inglês Demerara, o chamado ‘Navio da Morte”, que após escala em Lisboa, aportou em Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

 

COVID-19

 

O Professor Reinéro finaliza seu trabalho, discorrendo sobre o Coronavírus, observa sobre “a massa excessiva de noticiários em toda mídia sobre a COVID-19, com análises que vão do sensacionalismo sem peias, exploração político-ideológica de todos os matizes, algumas fundamentadas, outras nem tanto, à ação desenfreada da corrupção sem limites, tanto de autoridades como de políticos, mesmo diante de tantas mortes por falta de assistência da mais elementar, como a de um simples exame, crise econômico-financeira, desemprego em massa, desrespeitos às normas de distanciamento etc”. O que chama a atenção do pesquisador são “as comparações forçadas sem a mínima constatação de fatos; anacronismos de toda ordem a não ser a do sensacionalismo, para o qual passa a não existir distância temporal, espacial e contextual, importando apenas os possíveis impactos das notícias.

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